Chorabananeira





Novembro 25, 2009

Cupim

Deixa eu contar uma coisa sobre o Cupim. Ele é surfista. Começou surfando trem em Caxias na década de 1980, quando tinha doze anos. Só aos quinze ele conseguiu comprar uma prancha e passou a freqüentar a zona sul, mas só à noite ou em dia de chuva porque ele era péssimo nas ondas e os garotos de Ipanema ficavam sacaneando ele.

Então ele foi aprendendo a surfar sozinho, até finalmente poder ir à praia nos dias de sol. Ele ainda prefere surfar à noite, debaixo de chuva, na Macumba; mas vai ao Arpoador aos sábados e domingos só para esculachar os surfistas da zona sul. O Cupim é melhor que todos eles.

Eventualmente ele fez faculdade de farmácia bioquímica ou bio-qualquer-coisa. Eu sei lá. Casou com uma namorada argentina que conheceu em uma viagem ao nordeste. Teve um filho, fez PhD em Berkeley, Califórnia, mas diz que foi só desculpa para surfar por lá.

Voltou ao Brasil e teve mais dois filhos. Acabou arranjando um emprego como professor em uma universidade federal, mas não é isso que ele é. Ele não é professor universitário. Ele é surfista.




Novembro 25, 2009

Caxias

Eu nunca tinha ido à Caxias antes mas a descrição do Cupim acabou atiçando minha curiosidade. "Brother, a parada é muito boa. Tu vai prá outra dimensão. Pode crer no que eu tô te falando. Tu só vai acreditar depois que experimentar".

Cupim é professor universitário. PhD em biologia molecular. Ele mora em Caxias desde pequeno, conhece o lugar todo. Durante a adolescência ele ia de lá até a zona sul todos os dias, surfar. Ainda hoje ele faz isso de vez em quando. A irmã dele tinha virado delegada há pouco tempo. Ela também morava em Caxias.

"Beleza. Você me leva até lá então?"

Tá, mas você dirige. Eu me estresso com o trânsito nesse horário."

Tinha um engarrafamento enorme dali até Caxias. Demoramos quase duas horas para chegar. No caminho passamos por uma blazer com luzes vermelhas em cima. Chegamos à uma praça com um parquinho. Embora já fosse noite, ainda haviam algumas crianças brincando. Provavelmente moram em algum dos prédios que circundam a praça. "Pára aqui ó." Sigo a indicação do Cupim e estaciono junto à praça. "Pode deixar aqui? Não vão roubar?" "Relaxa, brother. Aqui não tem assalto não".

Vamos andando até uma pequena ladeira mais adiante. Algumas pessoas estão na rua, sentadas no meio fio. A maioria é negra, bermuda surrada e chinelos de dedo; algumas camisas. Eu de calça comprida e camisa social destôo da paisagem. Olho pro Cupim ao meu lado. Ele usa bermuda e camiseta, calça tênis. A roupa é mais nova que a minha, mas chama menos atenção.

Uma senhora curvada se aproxima de mim. "Uma esmola por favor". Leva um chute nas costelas. "Aqui num podi pedí ismola porra! Já falei!" É um garoto, quinze, dezesseis anos. Outro moleque chega e pergunta o que a gente vai levar. Parece que o Cupim já conhece o protocolo. Deixo ele responder. "Cinqüenta de prensado pra mim. E você, Sérgio?" Peço 250 pra mim. Prensado também. "Por aqui".

Seguimos o garoto ladeira acima, viramos em outra rua. Algumas curvas a mais e entramos numa casa com paredes de tijolos. Nenhuma tinta por fora, nenhum móvel dentro. Ele pede para aguardarmos ali e vai embora com nosso dinheiro. Dali à pouco entra mais um cliente. Uns quarenta anos, magro, olheira funda, paletó e gravata. Tem gente que consegue ser menos discreta que eu.

Nosso vendedor chega. Não é o mesmo garoto. Esse é mais velho, tênis de marca. "Pra quem é a brizola?" Paletó e gravata se adianta para pegar um pacote branco. Se esse cara for cheirar isso tudo sozinho a esposa dele vai acordar viúva amanhã.

Cupim e eu pegamos a nossa parte. O vendedor nos oferece dois pacotinhos de pó. Eu recuso, o Cupim pega o dele. "Num quer mesmo? É de grátis." Bom, se é assim; por que não? Somos avisados de que temos que esperar enquanto verificam a saída. Dois minutos depois uma menina aparece e nos guia pela descida. Saímos do outro lado da praça. O gol azul está onde deixamos. O cara do pó entra num Citroën C4, prata; canta o pneu quando sai.

O Cupim me deixa no ponto de ônibus. "Pega o frescão. Não esquece." A viagem de volta é um pouco mais rápida. Às sete o trânsito já está esvaziando. Um pouco antes da entrada da Avenida Brasil tem um engarrafamento. A polícia militar está fazendo uma blitz, parando carros e vans. Fico um pouco apreensivo.

Quando estamos mais próximos reconheço um Citroën prateado. O dono, paletó e gravata, já está sendo liberado por um policial satisfeito. O motorista de uma van; negro, desempregado, fazendo transporte irregular de passageiros, não tem a mesma sorte. Vai ter o veículo apreendido. O frescão passa sem problemas.

O prensado de Caxias foi o melhor que eu fumei até então.




Novembro 25, 2009

Optimistic

Não há nada mais aborrecedor do que lavar a louça. O problema é que quando você vai cozinhar está com fome; ou gula. Mas o importante é que há um ímpeto, uma força motivadora para picar cebola, cotar legumes, temperar, etc, etc. Ao final há um prêmio. Você vai comer algo bom.

Para lavar a louça não há ímpeto nem prêmio. Você vai enfiar sua mão na gordura, sujar a roupa e no final vai ter uma louça limpa? Me poupem.




Outubro 27, 2009

Isadora


Por mais confortável que um ônibus possa ser, sempre é cansativo viajar em um por mais de quarenta horas seguidas. Aquele ônibus não era dos mais confortáveis e a viagem levava quarenta e duas horas. Além de não poder ficar em pé sem ter que se esforçar para equilibrar-se nem poder deitar para dormir, ainda por cima não havia nada para fazer durante todo o trajeto, com exceção das paradas de tempo em tempo para comer ou esvaziar a bexiga, ou ambos, em postos de serviços ao longo da rodovia.

Quando a Isadora veio sentar ao seu lado, trocando de lugar com o Pierce, já passava da metade da viagem. Esses eram dois de seus cinco amigos que estavam indo passar as férias juntos.

Conhecera Isadora há pouco menos de dois anos quando ela entrou como caloura na mesma faculdade. Era uma menina linda. Aos dezenove anos tinha um rostinho de dezesseis, o corpo econômico nos volumes mas com curvas suficientes para deixar pensando até o mais correto dos homens.

O nariz afilado sobre a boquinha de anjo equilibrava os dois olhos de amêndoas, brilhantes e profundos. O queixo do tamanho de uma noz. Testa comprida. Tudo harmonizado pelos cabelos castanhos que desciam lisos até a altura das clavículas. A pinta na bochecha, do tamanho de um grão de arroz, dava o arremate final.

Quando lia sobre as ninfas gregas era o rosto de Isadora que imaginava. Não era uma beleza tradicional. Ao contrário era bastante exótica, do jeito que ele apreciava. E se não lhe faltava beleza, também vinha coberta por outras virtudes. Gentil e delicada mas com uma personalidade cativante. Se a voz tinha sempre um timbre adocicado, a cadência e o conteúdo eram de uma pura cosmopolita.

Haviam se tornado bons amigos. À princípio a aproximação se deu por que ele estava fascinado por Celebrine, de quem Isa era melhor amiga. Mas logo passaram a conversar animadamente nos intervalos das aulas, nas festas e, não demorou muito, nos bares que freqüentavam após as seções de cinema.

Ela gostava de andar de braços dados com o amigo, não se importando com quem pudesse ver. Ele se comprazia com aquela proximidade, sentindo o corpo quente da jovem ao lado do seu. Algumas vezes chegaram a ser confundidos com namorados por algum vendedor de rua. “Vai querer amendoim torrado? Pra namorada”. Vinham lhe vender rosas vermelhas na mesa do bar quando estavam juntos.

Só desprendia-se de seu braço quando encontravam com Pierce. Então ela ia para este e lhe dedicava toda a atenção. Àquela época Sérgio ainda não tinha certeza sobre o relacionamento entre os dois amigos.

Era noite e a maioria dos passageiros dormia quando Isadora sentou-se no seu colo e colocou sua mão sobre a dele. Apenas as pontas dos dedos se tocavam num contato tênue, quase místico, quase irreal.

Várias vezes havia dado carona à Isadora até sua casa. Várias vezes ela o convidara para ficar para o almoço. Só ele, a doméstica, que não deixava a cozinha e Isadora. Várias vezes ele aceitara.

Uma vez ela o convidou para subir e conhecer seu quarto. Bonito, arrumadinho mas sem frescuras. Isadora não era uma dessas meninas que enchem o quarto de posteres de galãs e bichinhos de pelúcia. Sentada na cama, pernas cruzadas. O shortinho curto expunha as duas coxas cor de creme. Conversaram bobagens, ela sorria, Depois desceram, almoçaram e ele foi embora.

O problemas era que o jeito de Isadora, seus gestos, suas palavras, sempre o deixavam em dúvida, Era apenas sua amiga ou havia algo a mais? Agia assim com todo mundo ou só com ele? Não conseguia encontrar as respostas à essas questões e sem as respostas não podia se decidir a dar o próximo passo.

No ônibus, luzes apagadas, o dorso da mão direita de Isadora roçava sua boca enquanto ele deslizava seus dedos sobre o antebraço esquerdo da menina, tocando apenas os finíssimos pêlos que o recobriam.

Não sabia quem havia fechado os olhos primeiro, se ele ou ela, mas quando no meio daquele êxtase estranho, de contatos mínimos, ele abriu os seus por alguns segundos, viu que os dela estavam fechados e os lábios, separados um do outro, deixavam escapar um suspiro mudo. Já vira expressões semelhantes nos rostos de outras mulheres mas não sem ter feito bastante esforço.

Braços se entrecruzavam enquanto seus dedos liam na pele um do outro um prazer sexual inexplicável. Uma sonata à quatro mãos. A ponta de seu dedo encostou na boca de Isadora, ficando entre os dois lábios perfeitos como se ela lhe pedisse silêncio com sua própria mão.

Mas o silêncio foi quebrado por duas meninas que viajavam nos assentos do ouro lado do corredor do ônibus. Haviam acordado em algum momento e agora os observavam. Uma deu um riso. Um risinho assim de nada, abafado, quase um sussurro.

Isadora abriu os olhos languidamente como que despertando de um sonho. Sorriu, sem mostrar marfim, apenas os cantos da boca se destendendo minimamente. Olhos brilhantes. O mais belo dos sorrisos. Deslizou para o seu próprio assento. Caiu no sono. Depois de algum tempo, quando cessaram os risinhos das duas meninas, ele também dormiu. Quando acordou era dia e a amiga não estava mais ao seu lado.

Nunca encontrou os lábios de Isadora.





Maio 27, 2008

A Bike


Quarenta e cinco minutos foi o tempo que levou até que o interfone tocasse. Correu para atendê-lo acossado pelas circunvoluções ruidosas de seu abdome. "Pois não?" O hálito amoniacal incomodava a si próprio. "É a pizza." Respondeu o aparelho eletrônico. "Já vai." Pegou o dinheiro separado há cerca de trinta minutos e foi até o portão, as chaves já no bolso da calça desde que o pedido fora feito.

O jardim estava frio, e teve vontade de voltar para vestir um agasalho. Mas que inferno! Agora que já estava no meio do caminho era melhor continuar. Se voltasse agora iria enregelar-se pelo dobro do tempo que já o havia feito até agora. Por outro lado, se fizesse todo o trajeto de ida até o portão sem o casaco, teria que fazer o de volta no frio também; e isso seria muito tempo de frio. Voltou.

Pegou uma blusa de lã e já ia vestindo quando pensou melhor. A blusa não era lá essas coisas em termos de proteção contra o clima. Digamos que diminuísse, talvez, a sensação térmica em trinta por cento. Ora, era um disparate ter percorrido metade do caminho até o portão e depois voltado, tudo isso exposto aos quatorze graus daquela noite, por apenas trinta por cento de redução na sensação térmica. Tirou a blusa e vestiu a jaqueta de couro. Agora sim, a proteção devia ser de uns quarenta e cinco por cento.

Estava na porta do quarto quando se deu conta de sua estupidez. Tinta mais quarenta e cinco são 75% a menos de frio! Voltou, tirou a jaqueta, colocou a blusa de lã, pôs a jaqueta por cima. Excelente, mas nada que não possa ser melhorado. Abriu a gaveta e pegou um cachecol. Caminhou faceiro através do jardim até o portão.

O entregador aguardava de pé. Casaco de moletom, capuz sobre a cabeça e pizza na mão. "Demorou hein." Comentou o freguês. "Pode crer, mano. Achei que tinha acontecido alguma coisa cum o sinhô." Com o dinheiro na mão, recontando o que já havia contado, o freguês demorou alguns segundos para entender. "Eu me referia à pizza!" O cachecol estava pinicando um pouco no pescoço. "Ah, é que eu vim de bike." Amarela, um tanto enferrujada, com o selim rasgado. "Pois devia ter vindo de moto." O entregador até se espantou. "Massácuméquié, ia piorar o aquecimento global." Então esse moleque estava tentando pegá-lo no seu próprio terreno!

Engenheiro florestal, trabalhava há sete anos na secretaria de Meio Ambiente do município. Não ia se deixar vencer por um qualquer assim tão facilmente. "Podia usar uma moto à álcool." Não era lá um argumento muito bom, mas não esperava que um entregador de pizzas pudesse refutá-lo. "E existe isso?" Sabe-se lá. Deve existir, por que não? "Claro que sim!" O entregador não estava muito convencido. "Nunca vi. Meismo assim, num se compara à uma bike.”

Não queria ficar ali discutindo com um garoto enquanto o cachecol espetava seu pescoço. Além do mais, estava começando a ficar com calor. Talvez tivesse exagerado nos agasalhos. "Ah meu filho, um frio desses e você vem com esse papo de aquecimento?" Melhor encerrar logo o assunto. "Olha, né por nada não dotô, mas ouvi dizer que isso aí tem nada a ver não.”

"E quem falou?”

"Então, foi a mina dum camarada meu que faz facul.”

Já era demais! Estava com fome, frio nos pés, suado no peito, pescoço coçando e ainda tinha que levar sermão de um entregador de pizza? "Vamos deixar de lenga-lenga, garoto. Quanto eu te devo?" Olhou pra cima, enrrugou a testa. O entregador puxava pela memória. "Vintium. Num te disseram pelo telefone?" Claro que tinham dito. Só perguntou por perguntar. "É, disseram, disseram. Toma aqui.”

O garoto estranhou as notas recebidas. "Tá trocado. Num tinha pedido troco pra trinta?" Mas qual a importância disso agora? "É, mas eu encontrei o um real que precisava." O entregador ergueu as sobrancelhas, contorceu a boca num bico para a esquerda e fez um muchocho. "Pô, demorei mó tempão prá conseguir teu troco lá.”

"Por isso que demorou tanto?”

"Então... Não. Foi por causa dessa ladeira que tem ali no fim da rua. Eu vim de bike né.”

O suor começava a escorrer debaixo do braço. Sentia o rosto quente e o cachecol empapado em volta do pescoço. "O sinhô tá meio suado. Tá passando mal?" Cacete, esse moleque não tem mais nada pra fazer não. "Não. É calor." O menino abriu um sorriso maroto.

"Então, tá vendo, é o aquecimento global. Essa mina do meu amigo disse que é assim meismo; em alguns lugares esquenta e nos outros esfria. Deve ser por isso que aqui na rua tá mó frio e aí dentro da tua casa tá quente.”

"Aquecimento global o caralho! Tô suado porque vim correndo te atender.”

O entregador fez que não acreditava. "Correndo? Num pareceu." Era só o que faltava o garoto agora vir chamá-lo de lerdo. "Olha, o papo tá bom mas é o seguinte; essa pizza tá fria." O garoto abriu as mãos como quem solta um pombo. "É que o sinhô demorou pra abrir o portão." Agora a culpa era sua! O que o menino queria, que ele saísse de casa sentindo frio? "Não, você que demorou pra subir a ladeira.”

O entregador concordou à contragosto, balançando a cabeça enquanto esfregava uma mão na outra tentando se esquentar. "Bom, esquenta aí no microondas então." E qual é a graça de comprar uma pizza feita em forno à lenha pra depois ter que requentar no microondas? "Aí vai gastar a minha energia elétrica. Sabia que tem gente construindo usina hidrelétrica na Amazônia só pra ter energia pras pessoas gastarem esquentando pizza que foi entregue fria?”

"Esquenta no forno então.”

"Aí emite CO2. Você não é todo preocupado com o meio ambiente?”

"E o quequiu sinhô quéquieu faça?”

Agora sim tinha virado o jogo. Esse entregador ficou sem argumentos. Completamente derrotado. Apesar da fome, decidiu desferir o golpe de misericórdia. "Volte lá e traga outra." A face descarnada do entregador estampava a dor da ferida causada pela estocada certeira do espadachim. “Voltar? De bike?" Ah, não havia no mundo pizza mais saborosa que o sabor da vitória! "Isso mesmo.”

O adversário vencido era inconsolável. Toda a sua linguagem corporal indicava a derrota. Uma mão apertava a outra, não mais por frio, mas em busca de um auxílio que não podia encontrar. A cabeça enterrada nos ombros se inclinava em direção ao chão. Olhava da pizza para a bicicleta, e então para a ladeira no fim da rua, voltando-se logo em seguida para o veículo. No entanto, repentinamente alguma coisa mudou naquele olhar. Aos poucos, segundo por segundo, não era mais a certeza da derrota que se refletia na íris do entregador. A testa desenrrugou-se e o rosto assumiu uma expressão de quem considera, analisa friamente uma hipótese, avalia os risco, arquiteta um plano. "Vai demorar. E se chegar fria de novo?" A sorte estava lançada. Cabia ao destino decidir-se pela cara ou pela coroa. A reação do freguês foi intempestiva. "Porra, não tem moto lá não?”

"Tem não sinhô. Aliás, ter tem; mas tamo sem grana aí pra gasolina. Tá muito cara né. Se o sinhô puder dar uma força.”

"Você tá me pedindo pra eu pagar a gasolina?”

"Se num for incomodar.”

"E o aquecimento global?”







Setembro 20, 2004

O Rato


Não tem nada que me dê mais nojo do que rato.

Caminhava sozinho no meio da noite, serelepe, fazendo seus ruídos característicos. Avistei o animal ainda à distância, já sabendo muito bem o que faria. As ruas estavam vazias e um vento frio soprava na noite sem lua, mas as lâmpadas dos postes eram suficientes para iluminar o espetáculo.

Desliguei os faróis e acelerei. Em poucos segundos fui da primeira à quarta marcha. TUM! A coisa se chocou contra o pára-brisa, rolou sobre o teto do carro e caíu alguns metros atrás de mim. Demorei para parar o carro, pois não queria cantar os pneus. Podia acordar a vizinhança. Olhando pelo retrovisor, vi que o bicho tentava se levantar. Ficou de bruços e apoiou o joelho direito no chão. Estava completamente desorientada a criatura, sem ter a menor idéia do que acontecia, mas fazia força para se erguer. Dei ré.

Ah, a ré! A traseira de um carro, ainda mais de un fiat, é completamente diferente da parte da frente. Quando você atropela um animal de frente, o capô funciona como uma rampa, que lança o corpo por sobre o carro. A ré não. É muito mais reta, quase como uma parede móvel, produz um impacto seco e o corpo entra pelo único lugar possível; por baixo do carro.

Como num passe de mágica: Oh! Abracadabra! E a coisa estava novamente à minha frente. Toda rasgada. Já era posível ver o sangue manchando o chão de terra batida. Fui em frente mais uma vez. Acho que estava pegando o gosto pela brincadeira. Engraçado. Fiquei horas, dias, imaginado como seria, planejando os detalhes. Mas eis que tudo era muito simples. Como são frágeis os seres vivos. O som era muito parecido com o de galhos secos quebrando-se quando você passa com o carro por cima deles.

A essa altura era possível que alguém tivesse ouvido os barulhos. Mas que iria fazer? Me repreenderia? Da forma como eu vejo, estava fazendo um serviço para a sociedade. Quem gosta de rato afinal? São sujos, nojentos, que só sabem emporcalhar e corromper tudo em que põem suas patinhas. Os vizinhos deviam me agradecer, isso sim! Ficariam livres daquela peste que perambulava impunemente pelo bairro. Ah, se o mundo fosse justo me declarariam herói nacional. O amigo do povo! Meu nome passaria à história, sucedido por algum epíteto grandioso: “O justo”; “O grande”! Mas como sabe-se a sociedade não costuma valorizar pessoas corretas, que fazem o bem. Quem vai se lembrar do poeta Gentileza daqui a duzentos anos? Quantos se lembram hoje? Mas Don Juan Tenório, Napoleão, Stálin, Sade, Hittler, Bush! Esses estariam para sempre na memória humana. Uma honraria eterna para os maiores sanguinários da história. Mas, felizmente, não para os ratos. Podiam não me condecorar pelo meu ato heróico, mas certamente não derramariam lágrimas por um rato.

Desliguei o motor e desci do carro. O verme caído no chão ainda estava consciente. O cotovelo dobrava para o lado oposto e o antebraço apontava grotescamente para trás. A pele, desacostumada com aquela posição, dobrava-se em alguns pontos e esgarçava-se em outros. O joelho direito, que antes tantara roubar-me a vitória, reduzira-se a fragmentos inconciliáveis de ossos, deixando a parte inferior da perna presa à coxa apenas pela pele. Alguns dentes espalhavam-se pelo chão, arrancados da mandíbula que agora estava livre dos ligamentos do lado direito do crânio e se pocisionava de forma bizarra à esquerda, babando uma mistura muito escura de saliva e sangue. Nojento. Como um rato.

O clima frio daquela semana tinha-me deixado um pouco resfriado. Sempre me acontecia isso quando a temperatura mudava bruscamente. Contraí os músculos da garganta, puxando o catarro verde e gelatinoso que cuspi no olho direito do animal. Me olhava aterrorizado. Não esperara por aquilo, mas percebia-se no rosto desfigurado que compreendia meus motivos. Talvez até me desse razão. O que teria feito ele no meu lugar, vendo a peste adentrando meu lar, comendo da minha comida e lambuzando-se no meu quarto? Não teria feito o mesmo? Não. Não é do feitio dos ratos. Talvez brigasse comigo, quisesse “lutar”, como um desses adolescentes que praticam judô. Eu certamente apanharia. Nunca fui bom de briga. Na verdade nunca quis ser. Não entendo esse negócio de “lutar”. Aprender golpes, praticar, me parece sem sentido. Ou você quer ferir a pessoa ou não quer. E se quiser, há meios muito mais eficientes e definitivos que com o punhos. Pode-se usar um revólver por exemplo. Ou um carro.

Tentou argumentar comigo, mas o acaso estava do meu lado. Da boca retorcida não saía som inteligível. Seus esforços faziam apenas borbulhar o sangue que dela escorria ininterruptamente. Comecei rir. Era engraçada a cena. O bicho estirado na rua tentando desesperadamente me convencer a ter piedade, mas sem conseguir articular palavra. Gargalhei. E com o riso que convulsionava meu corpo, não conseguia mais segurar a vontade de mijar que me assolava já há algum tempo, desde que comecei a seguir aquela coisa. Abri a braguilha, puxei o pau pra fora e comecei a urinar na cabeça do animal.

Cuspe e urina certamente deixariam pistas que as autoridades usariam para me identificar. Colocariam alguma luz especial sobre o meu carro para revelar machas invisíveis que esclareceriam tudo. O mundo hoje era dedicado a atrapalhar mesmo os pequenos prazeres das pessoas. Ainda assim, havia decidido há muito não me importar com essas coisas. Não se pode andar sempre na linha, se negar os prazeres para obedecer as regras da sociedade. Ele não se negou. Por eu deveria? Estou sendo “moderno”.

Fiquei olhando o rato babando e sangrando no chão de terra batida. Aos poucos foi se aquietando, perdendo a consciência. Demorou umas duas horas para parar de respirar. Ainda esperei alguns minutos para ter certeza de que não voltaria milagrosamente à vida. Depois entrei no carro e fui para casa. Sonhei com os anjos.







Setembro 20, 2009

Aulas de Piano


Quando papai adoeceu, sabíamos que dessa vez não havia esperança. Por dois anos achamos que ele estivesse curando, mas a volta do câncer acabou com nossa alegria. Mamãe sugeriu que ele se tratasse com outro médico, um cara novo, trinta e cinco anos, que ela dizia ser muito experiente pelo que leu sobre ele. Foi logo depois que ela voltou a tocar piano. O instrumento, então esquecido num canto sob a poeira dos anos, ganhou verniz novo, e foi posto em lugar de destaque no centro da sala. A princípio mamãe estava bem enferrujada, mas com as aulas que tinha, três vezes por semana, melhorou rápido. Não conseguia entender como mamãe podia se dedicar à música numa hora dessas, quando meu pai estava às portas da morte, mas papai a estimulava. "Não quero ninguém chorando o dia inteiro dentro de casa" dizia. "Prefiro que sua mãe tenha consolo no piano, que permanecerá aqui quando eu me for". Ele se conformara, apesar de todo o dinheiro gasto com o novo médico, que tentava os mais modernos tratamentos sem resultado.

Os parentes vinham visitá-lo todas as semanas. Não eram sempre os mesmos. Primeiro veio a tia Margô, com o marido e os filhos. Tio Jorge trouxe os cinco filhos, dois netos e uma garrafa de scotch para a última bebedeira com papai. Minha prima Elaine chegou falando sobre Buda e como a vida física era irrelevante. Ora vá à merda! E assim as visitas se sucediam, com um ramo da família de cada vez, num mórbido ritual de despedida.

Papai morreu pouco antes do Natal. No velório mamãe tocou ao órgão a música preferida dele: I Wish You Love, de Charles Trenet. Foi bonito. A essa altura ela já tocava melhor que muito artista por aí. Ele foi enterrado em um cemitério da cidade. Nada de gramados verdejantes estendendo-se até o horizonte, salpicado de árvores frondosas, com os parentes vestidos em negro e de óculos escuros. Não. Cada um veio de uma cor. Vovó Thelma veio de laranja, acho que só pra sacanear o genro morto. A Elaine acendeu incenso, mas foi impedida de discursar pelo tio Jorge, que, por sua vez, contou barbaridades sobre sua juventude com papai. Bêbado. O corpo foi colocado dentro de uma grande caixa de concreto, sobre o solo; e não abaixo dele.

Faz um ano que papai morreu. Hoje mamãe trouxe o médico de papai, o último, e o apresentou como seu novo namorado. Sete anos mais moço. Ela sentou ao piano e tocou I Wish You Love com perfeição. Ele, ao meu lado, comentou: "Linda não? Fui eu quem ensinei". Fui para o quarto. Naquela noite, os arpejos de mamãe me levaram à loucura.





O autor

Kaiser D Schwarcz Kaiser Dias Schwarcz nasceu no Rio de janeiro onde se graduou em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2005 se mudou para o estado de São Paulo, concluindo o mestrado em genética no final de 2008 pela Universidade Estadual de Campinas.


Contos
Artigos

principal
_passou